Para construir a história, foi necessário ir longe, viajar
no espaço. É como se fosse pegar um ultraleve e sobrevoar Recife. Andar com um binóculos,
uma lupa e vasculhar as vielas, as ruelas de tantos pontos pequenos vistos lá
de cima. Estava á procura dos meus amigos (assim os chamo - os personagens -
porque há uma relação afetiva e (diria) cúmplice entre criador e criaturas) e
ainda não os via. Eles estavam perdidos? Ou eles estavam também a minha
procura. De repente o sol veio à face, uma faísca, um fogo, um estrondo.
Pronto. Desci a terra e lá fomos a uma praça, ou a um boteco, ou até mesmo
marcamos um encontro na beira da praia. Mas nos encontramos. Vieram tantos.
Todos queriam. “Peraí” – eu adverti em voz alta. Eles, estáticos, fitaram os
olhos quase clamando. Tinha que selecioná-los. Nem todos tinham a vez da bola.
Pensei em escolher meia dúzia, mas não cabiam num quarto. Daí olhei bem direitinho.
Vi uma morena, e vi dois caras. O eterno triângulo amoroso? Poderia ser, mas
queria que fosse singular. Eles dentro daquele quarto cheio de fungos, frio e
cinzento. Uma noite branca num quarto branco. Uma história negra num quarto
branco. Poderia ser outra cor? Não porque as paredes são brancas, o lençol é
branco, o amor também pode ser branco e eu ia colocar a história num papel em
branco. E no fim, o final ia ficar em branco, porque nem todos vão saber o que
realmente se passou naquelas quatro paredes fúngicas e úmidas.
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