segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Cor do Quarto



Para construir a história, foi necessário ir longe, viajar no espaço. É como se fosse pegar um ultraleve e sobrevoar Recife. Andar com um binóculos, uma lupa e vasculhar as vielas, as ruelas de tantos pontos pequenos vistos lá de cima. Estava á procura dos meus amigos (assim os chamo - os personagens - porque há uma relação afetiva e (diria) cúmplice entre criador e criaturas) e ainda não os via. Eles estavam perdidos? Ou eles estavam também a minha procura. De repente o sol veio à face, uma faísca, um fogo, um estrondo. Pronto. Desci a terra e lá fomos a uma praça, ou a um boteco, ou até mesmo marcamos um encontro na beira da praia. Mas nos encontramos. Vieram tantos. Todos queriam. “Peraí” – eu adverti em voz alta. Eles, estáticos, fitaram os olhos quase clamando. Tinha que selecioná-los. Nem todos tinham a vez da bola. Pensei em escolher meia dúzia, mas não cabiam num quarto. Daí olhei bem direitinho. Vi uma morena, e vi dois caras. O eterno triângulo amoroso? Poderia ser, mas queria que fosse singular. Eles dentro daquele quarto cheio de fungos, frio e cinzento. Uma noite branca num quarto branco. Uma história negra num quarto branco. Poderia ser outra cor? Não porque as paredes são brancas, o lençol é branco, o amor também pode ser branco e eu ia colocar a história num papel em branco. E no fim, o final ia ficar em branco, porque nem todos vão saber o que realmente se passou naquelas quatro paredes fúngicas e úmidas.


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